Considerações sobre o filme “Ensaio sobre a Cegueira”

O filme “Ensaio Sobre a Cegueira” (título em inglês: “Blindness”, de 2008), dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles (“Cidade de Deus”, de 2002) e baseado no livro homônimo do consagrado escritor português José Saramago (1922-2010), é uma daquelas obras da sétima arte que nos fazem refletir sobre a natureza do ser humano e de sua existência, lançando questionamentos filosóficos sem respostas fáceis e deixando um espaço em branco para que o público possa preenchê-lo com sua própria imaginação ou visão de mundo.

Direito, Moral, Ética e Justiça entrelaçam-se tanto na vida real cotidiana quanto no enredo fictício apocalíptico do filme.

E a sinopse é basicamente essa: numa metrópole qualquer, não identificada, personagens também não identificados por nome, mas somente por seu estereótipo social (o “médico”, a “mulher do médico”, a “prostituta”, o “homem do tapa-olho preto”, o “ladrão de carros”…) são acometidos por uma misteriosa epidemia de “cegueira branca”, que faz grande parte da população literalmente perder a visão, fazendo com que o governo local isole os infectados numa espécie de hospital-presídio, para que não espalhem a doença. Somente uma única personagem, a “mulher do médico”, continua enxergando e torna-se a cuidadora, protetora e líder do grupo de cegos.

Com a literal perda da visão, o ser humano agora torna-se frágil e vulnerável, como se fosse uma criança pequena, altamente dependente dos cuidados de alguém que possa auxiliá-lo nas mais banais atividades cotidianas, como por exemplo, usar o banheiro.

O instinto primitivo de sobrevivência sobressai, induzindo uma luta em que os fortes subjugam os fracos, até mesmo na disputa por um pedaço de carne para se alimentar.

Agora, sem poderem enxergar o “pecado” da nudez, já não existe a necessidade de roupas. Pode-se andar nu. É mais um convite para retornar ao antigo e primitivo estado natural dos seres humanos. Convite esse que desperta a luxúria, e a necessidade de fazer uso de outros sentidos e aprimorá-los: audição, olfato, tato, paladar.

A depender das circunstâncias, cada vez mais extremas, parece já não haver certo ou errado. É a tentação para enganar, explorar, roubar e matar o que atormenta a consciência dos sobreviventes. Fomenta-se o sentido ético e moral de cada um dos personagens do drama; faz-se um convite para suas crenças e convicções particulares; e desperta-se a dúvida sobre o como agir em relação ao outro em sociedade, ou no que restou dela.

Num cenário apocalíptico de caos, decadência e podridão, literal e metafórica, José Saramago, brilhantemente traduzido para o cinema por Fernando Meirelles, convida o espectador para filosofar sobre a “cegueira” de cada um de nós. Aquela que nos permite ver o outro com os olhos, mas não enxergá-lo em sua plenitude, tão cegados que estamos com nossos próprios preconceitos e julgamentos pré-concebidos.

O ser humano em toda a sua complexidade surge nessa obra: ignorante e arrogante, frágil e valente, justo e amoral, racional e instintivo. São duas as “cegueiras” retratadas: a real, causadora de todo o caos, e a metafórica, nas entrelinhas, igualmente maléfica – as duas, entrelaçando-se de tal forma que somente aquele espectador com uma visão mais crítica, talvez ainda não totalmente “cego” pela ignorância humana sutilmente denunciada no filme, consiga identificar.


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Considerações sobre o filme “Ensaio sobre a Cegueira” foi escrito por Fládson B. M. Freitas e publicado originalmente dia 23-fevereiro-2019 em FLADSON.COM | ARTS BY FLÁDSON